Acabo hipócrita suicida, sem papel, punido de querer, ora querer!, necessitar ser punido.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
CIRCO
Acabo hipócrita suicida, sem papel, punido de querer, ora querer!, necessitar ser punido.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
AMOR NOS POETAS DE SANITÁRIO
Empáfia premente de contestação.
Dúvida: se pudera ou não
Extirpar-lhe dejeto gramatical.
Tal qual nódoa nas partes baixas,
Picuinha suja dos invejosos,
Lasca críticas e suja os forros
De poesias ingênuas, por pirraça
Amor mesmo é rasga-lhe a bunda
Cuma investida nessa gruta imunda,
Sentimento de trepar sem mel.
Sendo amor a contração anal,
Não põe poesia, pum gramatical,
Na vilania desse roto anel.
segunda-feira, 14 de março de 2011
PIBA, O MENINO-LOBO
Mamar, se arrisca a vida no bojo
Dos alentos de menino-lobo
Habitante da greta tropical
Peludo e úmido: animal.
De chapéu couro vem visitante
Cientificamente brilhante
Captura-o pro laboratório sociedade
Apresenta-o na Academia
Quis dar-lhe uma olhada o padre
Sai no jornal escrito, falado e visível
Pra toda comunidade.
Testam suas aptidões exaustivamente!
Condicionar qual que é
Um aparato psico-tortura
Dura dois, quatro, seis meses!
"Piba!", foi o único som que soltou
Antes de falecer, mártir da cultura.
Na mata, quando podia, queria
Quando queria, podia.
Os calhordas lhe deram deveres:
"Este suspensório tem de ser posto,
Os panos vão por aqui,
Hora do banho,
Colher garfo, talher,
Tens uma linguagem para aprender."
E teve a vez dos nãos:
" Nada de andar acocorado,
Não de boca aberta,
Não de subir nas árvores
Não, Piba!"
Que culminaram nos senões:
" Não belisca os traseuntes, senão nada de comida,
Não arranha os móveis, senão sem passeios,
Não deda a lama, senão te estapeio!
Não me enforca, Piba, senão vai cativo!"
Essa última não adiantou e foi derradeira
Já fora muito fácil matar no dedo um preá
Quiçá um javali selvagem,
Avalie um poltrão da Universidade.
Quando a polícia chegou
Piba jazia morto e nu ao lado do corpo.
Mais tarde revelaram que havia engasgado
Com um botão laminado de seu suspensório;
Realizara, desajeito, o ato de rasgar a roupa
E a janela já estava aberta com vista na mata...
Resta onisciência pra lamentar seus lamentos
Pois os símbolos de aqui lá não haviam.
A pelugem da loba, a folhagem das copas,
Não dever-ser, primevo ser vivo
Das falanges articuladas de quadrúpede
Que não veio social nem se fez
Na matilha institucional, em toda a hipocrisia do globo
Preferia, em vida, ser sempre Piba, o menino-lobo.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
DESJEJUM DE OFÍCIO
Com desejo de quem come pelas beiradas, guardando o melhor, o recheio para o final, naquele quadro estático que eu chamaria sem dúvida de um prato de papa quente, me ative às paredes e ao chão do casebre. Barro só, obra feita às pressas, as ripas abraçadas na força bruta e uns buracos de caber mão dentro; se meus olhos, donos do momento, tivessem "flash", aposto que teria visto os insetos e seus ninhos nas fendas. Na parede, quadro de Ave-maria pregado e dois punhos de rede a ranger. Guardo a rede e sua hóspede para depois.
Varadas as primeiras colheradas, passo mais para o centro e vi os móveis poucos. Mesinha coitada, coitada de velha e pequena, com dois potes meados, um de feijão preto o outro de arroz. A estante pendia pra frente, ainda que calçada por nacos de calhas, mas não guardava nada; só podia ser fruto do lixo aquela peça. A cadeira pixota, na verdade, pedaços de tábua grampeados, e uma perna negra em repouso começam a entrar no centro, no meio, no recheio do quadro, do meu leitoso gostoso prato de papa.
A perna largada tinha os dedos dos pés cobertos de pó cinzento, pé descalço. Tornozelo açoitado de mosquitos e panturrilha blindada, sem picadas; digo até que bruxuleava tons marrons de tão lisa e intacta. Já no joelho, a cicatriz de um arranhão recente. Vejam que comecei a sentir sabores quando olhei mais acima da perna. O volume negro de erotismo bambo, repousado firme de penugem macia, me fez imediata e despudoradamente suar. Era uma senhorita sua dona, nova pelo comprimento, mulher feita por sua largura e atrativos. E olhem aqui a rede e sua hóspede, o centro do prato.
Do ângulo que estava e do balançar, se me permitem acabar com o quadro estático e fazê-lo de alguns instantes, a perna esticou e contraiu, esticou e contraiu; foi quando o erotismo fez-se firme e a perna repousada, bamba. Continuo. Vestia um trapo de vestido branco, encolhido onde meus olhos não alcançariam direito qualquer coisa, a outra perna pendia solta do lado oposto da rede. Não vi ali as graças internas de suas coxas. A rede era tão baixa que a menina tinha uma de suas mãos no chão, levantando poeira no vai e vem de dedos cinzentos. Consegui no balanço admirar o busto florido, adolescente, broto negro erógeno que inflava os farrapos. Num instante, ela vira o rosto para mim e pára de balançar.
Deus, eu simplesmente adoro o que faço.
Ela completou meu bom dia e eu pude me movimentar.
Disse que era dia de consulta, espiei se tinha alguém lá fora
E tranquei a portinhola.
domingo, 23 de janeiro de 2011
HORROR EM ANAUÁ DO SUL
Raspam seus cascos impressos na terra
Conluio de boiadeiros etéreos
Enganam quem chega no vale fantasma.
Ali, uma cidade. Ninguém por ver
Se viu, mentiu, que são almas desencorpadas
À encobrir caveiras e qualquer sinal
Das dezoito famílias ali finadas.
Eram Henriques, Otavianos, Rochas, Rosas, Oliveiras, Rodrigueses
Estrelas, Mourões
Andrades, Nogueiras, Antuneses, Uchôas, Almeidas
Di lascios, Onofres
Serrões, Ubiratãs e Leões.
Começo da contenda foi o número de boi.
Se misturavam nas pastagem muito próxima
Um Henrique reclamou várias cabeça malograda
Otavianos, ressentidos, cortaram relações
Dois Rochas, refugos de boataria, tangeram alguns perdidos pro curral
O prefeito Rosa declarou que em Anaúa do Sul não tinha vez pra malandrice
Oliveiras recolheram todo o gado do pasto
E uma anciã Rodrigues, safa na feitiçaria, macumbou toda a vida da cidade.
Daí o gado começou a mudar, horror só.
Veterinário Estrela viu os olho de bila inflamado dos bovino
"Agressividade sobrenatural e leite azedo", relatou seu Mourão.
Não fosse o velho Andrade notar um acontecimento, diriam ser doença de animal;
A menina Nogueira, loira e pequeninha, foi estripada no pasto por um touro feroz.
Deram o touro como dos Antunes, vizinhos de cerca; foi contenda e horror.
Uchôas penavam em prender seus gados, sacrificavam os mais ariscos
E os Almeidas desconfiavam de todas as outras famílias.
Daí o gado começou a mudar, horror em Anauá.
Um Di lascio escritor produziu um manual de como apascentar o gado corretamente
"Viraram demônio esses boi", mulato Onofre sangrado de chifre.
Serrões, donos maiores das boiadas, não gostaram do livreto, era chinfrim
Os bicho não melhorava, ficavam mais negro e cadavérico, ferozes.
Ubiratã tentou uma mandinga com a mãe Natureza e tudo piorou;
Baixou uma secura na cidade, todo o pasto murchou
Um negro no céu e loucura das besta nos curral.
Quando fugidas das amarra, reuniram-se no topo do Vale
E caíram varrendo as família, começando pelos Leões.
Daí o gado matou um por um, horror em Anauá do Sul.
É por essa que todos os dias na cidade decaída
Numa determinada hora da noite em que, religiosamente, descem do Vale os bois
Todo o povo fantasmagórico de Anauá do Sul varre com os dedos transparentes
Unidos na morte e na agonia, os rastros pisados das boiadas antigas.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Teatro acadêmico
Dispostas próximas aos seus joelhos
A pensar na escolha do papel
Ativar outro pensar, senão sê-los.
Pois que estamos na Academia
Máscaras do saber em dupla face
Se acatarmos, que frente seria?
Aquela que mostre os fatos que nascem
São estes, amigos, fatos sociais!
Guardado o papel, atentem aos díspares
Como ajudar se não somos iguais?
Mostrar a persona, formar novos pares!
Falo da máscara do universitário
Ator preocupado não só com o palco
Que não se enxerga sujeito unitário
Do palco, o saber a qualquer que vê
Irradia, extrapola o local do teatro
Do palco, das personas dispostas à peça, o Espetáculo!
Pois conhecimento não foge de práticas
Estas, receptáculos!
Ocorrências de qualquer hora e data
Não dispensam movimentos contributivos
Que confluam numa vivência melhor, mais sensata.
Mas, não sei... Temos atores ainda sem máscara.
São aqueles, amigos, que não aceitam papéis
Nem mesmo dispostos a dobrar os joelhos
A fim de alcançar personagens trabalhosos.
Preferem representações rasas, superficiais
Coadjuvar enquanto protagonistas
Protagonizar enquanto coadjuvantes!
Quando lembram da máscara:
Pena. Está sempre ao contrário.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Recheio da Cesta
Cigarettes ideais no pulmão
Cogumelos recheados de querências
Vários achados e um vinho,
De uvas do Éden, das uvas mais velhas,
Modorrento como o gim que inebria
Gim que também compõe a cesta pensada.
E o beber palavra e o fumar querer
Confundem!
Opoula de papiáceo, maravilha!
O querer é ver um som, simbolizá-lo no ar
Banhar-me de ácido lisérgico ideológico, vaporizado
Junto à liberdade da mente modificada.
É trocar o nome do que queira usar,
Usar, abusar do que ofereça a cesta
Dar um trago na vida, encurtando a bituca.
Confundem:
Bebo fumaça ou fumo fluido.
Tudo do que quero,
Nada do que espero.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Que não se diz IV
Sou olho cavado, descabelada, sou Elis, sou lábios finos pálidos
Sou olhar esquálido, infeliz, sou humano acabado
Sou triz.
Fora do espelho eu ando segura na barra de ferro
Sou fraca, debil, desconcertada, à caminho do vaso
Sou sexo ressecado, que diz:
Há tempo me cerro.
Elis que luta com o vaso para mandar embora o que fez.
Sou fraca, debil, infeliz terminal
Sou humano final, sou olhar morto, despelada
Sou o que diz: Amaldiçoada!
Elis que luta pra ligar a ducha.
Sou débil mental, pedido final, que eu fiz:
Quando a vazão da descarga cessar e esse filete d'água ganhar volume, quero que o banho lave minha maquiagem dormida e os poucos cabelos que me restam entupam o ralo.
Mal lavada a maquiagem
Mal caídos os cabelos
Escorregou do braço de ferro...
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
MARIA RONDA
Bailarina descalça do ponto angulado
Ralha, labuta, descansa nos poleiros
Enfeitados, magros, escondidos, acabados
Poleiros... Se põem de pé!
Coalhada azeda, Maria Ronda bactéria
Tive medo de enfrentá-la. O meu é enfeite.
Foi que veio querendo deleite
Né que dei querendo enfeitá-la?
Copo de leite, Rondinha roliça
Foi como ao verme oferecida.
Delgado ágil, o meu é magreza
Né que tomei tentando encurtá-la?
Vaca, das patas descalças
O brejo é denso. O meu é oculto.
Brotou do mato por baixo da vaca
Né que cresci buscando ocultá-la?
Via láctea, Maria Ronda!
Fenda espacial! O meu é cansaço.
Ruge pra fenda, ruge poleiro!
Né que limei desejando tapá-la?
Com os bolsos cheios
Seios na rua
Acaba seus dias cansada;
Leitosa molhada,
Labuta servindo:
Empoleirada.
sábado, 5 de setembro de 2009
domingo, 28 de junho de 2009
CABEÇA DE PANO
Teu peito escuro vem inflado de amargura
Aos meus deveres já cumpri amargurado
Comprei-o, sua!, que fui liberto
Duras faturas, quitei todo o saldo
Fui negro preto, ardi amarrado!
Cultura de tambor, macacos e tribos
Batidas peludas e gritos de guerra
Ardi, negro preto, suei mais escuro
Na tribo macaca do tambor de guerra!
E quando ousaram buscar-me na tribo
Peludos macacos presos pelo rabo
Pilharam, mataram, nas portas da tribo
Tambores calaram, negro preto, eu ardi!
Ardi que foi sangue na barra da saia
A preta caiu, largou da boneca
Macaca, que preta, da tribo de guerra!
Catei o brinquedo da poça vermelha
Mosca carniceira pousava à costura
Firme apertei a cabeça mais meiga
Lambeu-me o chicote da pura mais pura
Cobiça branquela perdura mais dura:
"Tu vem, macaco, plantar nossa terra!
Deixa essa tribo e teu grito de guerra
Sou guia do mar, europeu valente
Na marca do passo pisado ao parente
Matei os doentes, prendi os feridos
As feras macacas, fiéis aguerridos
Ao mar! que sou guia, à terra madura
Levemos os pretos à semeadura!"
Ainda seguro o brinquedo de mancha
Salinas as águas, deslizo ao inferno
De pretos macacos, fileiras medonhas
Valentes guerreiros falidos das tribos!
Inimigos! Findaram-se as guerras...
Lenha arqueada, mofo e abusos
Dez guias cheirosos, um naco de vida
Correntes pra cem e velha ofendida:
"Oh, meu Pai preto, macaco divino
Cuidei das crianças, banhei os meninos
Bati meus tambores, deitei meu marido
Tratei de curar dos mais esquecidos
Leitosa tu manda esta corja ao meu povo?
Do gozo nos tira, remete ao seu nojo?
Lança tua ira, Guerreiro dos céus!
Ao povo macaco do tambor de guerra
Na era abatida de vir só servir
(Sempre descalços, famintos de terra)
À rosada face, enevoa o porvir!
Ri! De nosso destino, de nossas escaras
Por Pai ser macaco, traiu a seara:
Pedira que fosse a colheita mais clara
Secou nossos frutos, cuspiu-nos a cara!"
No solo não pátrio, vendeu-me a carne
Dissipa-nos, branco, avalie meus dentes
Sou forte, me leva à senzala escura
Começavam tempos de semeadura!
Na brecha escondida guardei a boneca
Cabeça de pano manchada e aberta
Vislumbre que tive da vivida festa
Gritos alegres, vivência modesta
Tambores vibrantes, mas que bela festa!
Funesta! A alva senhora que leu meu pensar
Chamou o senhor de corda a empunhar
"Lambe este negro!", mandou a gritar
Enxada caída a me denunciar
Longe da seara observa que está
"Castiga este negro, põe pra trabalhar!"
"Que há?", reclama o escuro bom velho à senzala
"Se pensam que o tambor calou mais pra lá
Errados tiranos, não sabem cuidar
Do povo que serve da terra de lá.
Levantem! Guerreiros dormentes da tribo de guerra
Ao mar que sou guia, um velho valente
Valioso o saber vem de nossos parentes
Guiarei nossa tribo ao tambor, à terrra!"
Catei a boneca da loca escondida
No dia dos pretos seguirem seu guia
Esqueça a fadiga das mãos calejadas
Luta, negro! Feras armadas!
De foice, de pedra, de braço, de corda
Massacra a leitosa c'oa valiosa horda
Macacos de força que clamam por terra!
Guerra! pelo negro Tyehimba:
"Das portas abaixo, do sangue mais fino
Beberam e pisaram na casa maior
Nao pode escapar nem mesmo o menino
Fulmina o moleque, transforma-o em pó!
Vareta, senhora? Te agrada da preta?
Se sim, vai servida, se não, te ajeita
Pois vara meu ódio, sizuda a vareta
Rasgado teu corpo, sangrado se deita
Vingança, negrinhos! Da tribo de guerra
Matem-os! Firam aqueles que mais os apertam
Vermelho lavado, voem destas terras!
Pilhem, maltratem, gargalhem, mias feras!
C'oa certeza empurrada que negros despertam
Vermelho lavado, voem destas terras!"
Horror da miséria humana, cruel
Desnuda a vilã sem cor, sem chapéu
Que leva o chicote, que bate tambor
Eterna sem cor, desnuda cruel
Nao te pertenço, imunda! Nem tenho chapéu...
Perguntava seguro à cabeça de pano
Que sou, Pai macaco? Se mato, se engano?
Carrasco primeiro o foi este branco
Mas meus pretos... pararam o batuque
Festivo não vale este sangue trocado
Correntes e pedras, pistolas, ataques
Saques! Tiraram-me tudo!
Só querem roubar-me a cabeça do pano
Sou qual urna oca, meu preto, taluda
Sou alma rasgada, espectro escuda
Das falas dos multicolores humanos.
Fugi proutro lado que não do quilombo
Se vão para o inferno os pretos e brancos
C'oa minha boneca tracei os meus planos
Comprei com suor, que ardi, labutando
Desato as atadas sem guerra, sem terra.
C'oa minha boneca tracei outros planos
Labuta eterna, ardido o suor
Sem guerra, meu preto, comprei minha terra
Não sou mais macaco do tambor de guerra!
Quero-os agora! Fossem brancos comprados, europeus adquiridos
Feras macacas, fiéis aguerridos
Os sejam! Mas se têm preço, compro!
Sou eu agora, negro preto, eu e meu pano...
Pois lembro da saia rodada da negra
Leve o balanço, seus dentes marfim
Histórias de um povo que vale o que conta
Sem medo, meu preto, espera seu fim
Humana livrada da crua miséria
Bela!, a negra do mar de ponta
Banhava seu filho, de pano a boneca
Magnificamente; portava-se assim
De nada me valem os outros enfim...
Compro! Se bem quero ao meu resto mundano
Pai macaco, perdoa meus outros enganos
Te compro, meu preto! Vem servir teu amo!
Espera mãe preta teu filho vivente
Sem chapéu, sem guerra, sem tambor ou terra
Macaco não mais, desatados membros
Sem pedra ou chicote, que morre a fadiga
Só levo a boneca da simbologia
A cabeça de pano que vale esta vida.
terça-feira, 10 de março de 2009
Da nação, danação!
Era ainda tempo de guerra com armas brancas, flechas... Eis a figura mais miserável destes embates: o triste do soldado que ostentava estandartes. Tal não tinha nem espada ou faca, sua roupa leve. Passeava apreensivo por entre as respirações marcadas daquela massa armada. Crê que era dali o mais belo! O preferido à carregar tais instrumentos, pois sua mão era muito fina para o punho de muitas daquelas armas pesadas, seu corpo bastante delgado para armaduras. Aliás, a bandeira que portava era dum colorido que impelia respeitosos sorrisos dos habitantes daquelas terras. Bruxuleava, surrando o vento, presa num longo metal oco. Quando passava tropeçando, urravam em línguas antigas várias saudações suicidas decoradas. Pensou ser muito útil ao grupo. Sagaz homem, sim? Nada. Romperam gritos, alguém engasgou o nome do país bem alto, todos os soldados iniciaram a corrida, gritando, correndo, caindo, levantando, correndo... Eram tantos. O dono do pano também corria, gritava, caia, levantava, corria. Quando terminou seu ciclo e continuou seus passos, ainda empunhando a bandeira estendida surrada de vento, olhou para os lados e viu lâminas e mais lâminas. Olhou para a sua bandeira, daí para as lâminas. Bandeira; lâminas. Sagaz homem, não? Questão de ponto de vista. Não poderia mais voltar, seguia empurrado, pois empacara com as suas constatações. As duas sombras que cobriam os campos finalmente chocaram-se. Os urros de morte acabaram por ruborizar ainda mais o ódio patriótico do dono do pano, e ele ainda não soltara a bandeira. De repente não sentia mais os repiques no metal - o colorido havia desaparecido, enrolara-se no metal oco. Como que desfeito dos recentes pensamentos, moveu e moveu a haste para que o pano voltasse a brilhar. Não percebeu quando as primeiras fileiras do exército foram derrubadas, nem a proximidade do mais insano dos soldados. Aqui, o cômico: quando tentava sem sucesso fazer com que regressasse a extensão de seu tecido, movimentando o metal como equilibristas equilibram pratos, exausto, bem exausto, suando sua inutilidade patriótica, não esquivou-se da s lâminas inimigas, morreu inútil, ressarcido pelo gosto de ferro e sangue de mãos alheias. A guerra continuou sem a bandeira, como era de se esperar...
Soldados, meu caro, são os mais desvairados dos trabalhadores porque o seu patrão não vive, é imaginado. Suas metas não são compartilhadas, dependem do patrão. Seu esforço é meta do patrão! Heróis não existem porque são disfarces, sandice. Vá crer que falo isso porque sou presidiário! Vá crer que falo isso porque bebo rum todos os dias! Porém quando olhares o sangue que espremem das bandeiras dos países, lembra do soldado e lembra também de mim. Há muito quis ser eu também um deles.Era esbelto e bonito. Sem dúvidas carregaria as hastes. Soube da história que te contei, agrupei-me ao rum e ao tal de um manifesto. Anarquia, anarquia!, gritava embriagado. As nações eram minhas inimigas e eu seria o soldado de mim mesmo. Perdi. Falo baixo para não alertar os torturadores; rasgam aos poucos minha carne, antes fosse eu o dono do pano. Um golpe e o consolo da morte. Soldados decompostos! Esgotei meus pontos de vista... Pergunto novamente: Sagaz o cômico da bandeira? Absolutamente, um gênio!
Danar-se-ão as nações! Os mais astutos saberão como tratá-las, pois ao invés de revolta receberão uma adesão disfarçada e os soldados não mais usarão armas, todos portarão bandeiras. Só assim não morrem, só assim não correm, nem gritam, nem caem, nem levantam. Irão jantar de prato principal os seus patrões!
Amigo, agora corre. Já chegam os torturadores. Agradeço o rum, seus ouvidos... Volta para teu posto, soldado. Recorda minha figura atormentada no dia em que o vento surrar as cem milhões de bandeiras! Adeus, que é certo; de hoje é adeus.
sexta-feira, 6 de março de 2009
FAZENDA DE DE NOITE
Leva teu couro embora!
Minha saia comportada nunca sobe
O pai do silêncio segura minhas rédeas
A mãe da costura tricota meus passos.
Os cavalos inquietos nos espiam
As moscas asquerosas nos rodeiam
Bactérias relutantes nos atentam
O vento, Genaro, sopra em desafio.
Os bois defecam, o cheiro podre
Os criados, bom Genaro, nos espios
Olhares pertinentes das galinhas.
Percevejos verdes em ti pousam
o sol aperta, as nuvens chovem, as amas chamam...
Tua mão de calos, minha pele fina
Logo ouço estalo, uma de minhas mãos.
E tuas botas sujas, minhas sapatilhas
Teu chapéu surrado, de brilho o diadema
Tuas desconversas, meus vários discursos
Tua viola velha, meu Chopin divino.
Mas quando as amas dormem, quando as nuvens se dissipam
O sol se esconde com os percevejos.
Quando as galinhas param, quando os criados partem
O cheiro podre se fecha com os bois.
Quando o vento estanca, quando as bactérias cansam
As moscas se vão repousar nos cavalos dormentes.
E quando a mãe se livra da delgada agulha,
E quando o pai afrouxa em roncar parado
Genaro, sim Genaro, minha saia sobe
Traz logo teu couro!
Nesse intervalo, trata de livrar-se das botas
Do chapéu, e cala, por favor, cala!
Fazenda de de noite é bem mais livre!
Mas se insiste em prolongar, que seja, essas nossas horas
Até amanhã, meu bom Genaro, e boa sorte!
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
FAMÍLIA DAS SOBRAS
Feito matéria de ser utilizado
Não é pra comer feito bicho
Cospe logo fora este bago mastigado
Usam, e mordem, se deixam
Para alegria não é inutilizável
Os pretos sempre se queixam
Pois este alimento é do bem razoável.
Vê:
São restos seletos na ponta do dedo
Na ânsia encardida daqueles mais pretos
Na sede, na fome, no olho do medo
Na falida esperança, esquivar-se dos dedos
Pretos de medo, pontudos delgados
E sujos! Sujos... Profundamente melados.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
DEUS PARA DEPOIS DE PODRE
E toda a raça humana renascer liberta
Eu que já fui criado, novamente o serei em suas mentes.
Poucos burgueses renascerão soberanos
E estes poucos guiarão multidões em meu nome
Mas, diferente, todos nestas multidões vão ser gente
Fora delas, quem não vai, pisoteada.
Darei a todos um pouco de glória!
A merecida por cada cabeça do rebanho!
Eu, de personagem feito assim gritado e pregado
Atravessei a lama pesada do imaginário
Emergindo sujo e corrompido, permanecendo assim por Eras.
Limpei-me! Na saliva exaustiva dos que pregam, me banhei
Fora dela, quem não vai, esclarecida.
E é agora que termino minha promessa:
Eu me refiz, me coloquei nos meus castigos
Já banirei todos os trastes, os canalhas de batina
Reabrirei as portas deste nosso lar aos oprimidos,
Aos castigados, aos seduzidos
E aos célebres esquecidos sem amigos
Pois que são aqueles poucos burgueses
A equilibrada mão que sustenta meu reino soprado de fogo!
Renascerá brando, vivo, varrido de canalhas
Trastes queimarão antes que instaure;
Apenas nos burgueses que confio!
Agora o povo pode acreditar sem temer
No Deus limpo de lama, sedoso no cuspe
Sendo os burgueses, e somente eles
Minhas engrenagens neste novo mundo mais amigo
Fora delas, quem não vai, já foi varrido.
sábado, 31 de janeiro de 2009
VERDADEIRA DANÇA
Saiu para dançar seus ossos fracos num desses bares
Sentou-se numa mesa só, pediu uma dose
Fumou um cigarro, foi no banheiro, ajeitou o batom
Olhou no espelho e gingou seus ombros enrugados com a música
Saiu como a mais jovial de todas as moças
Dançando seus ossos fracos em busca do salão
E dançou como nunca antes dançara aquela velha
Sozinha, em meio aos casais, de salto alto e olhar nos pés
Seduzindo homens casados que deixaram o uísque de lado para olhar
Girou, girou duas vezes, cantou girou, girou o vestido
E muitos já aplaudiam seu show, os músicos instigaram-se
O melhor dançarino do salão convidou-a a dançar
Mas daquela dupla onde o homem conduz e move a moça
Esta foi a que mais apareceu e trouxe os olhares na sua pele flácida
Pois dançava sua dança de morte,
Assim como fazem os que não acreditam
Gozam até o ultimo segundo quando sentem o ar ficar fraco
Rodando e mexendo os seus vestidos...
Dançou várias horas, até que parou.
Tossiu, tossiu, virou os olhos e seu par teve que ampará-la
Logo havia um som de sirene, mas era tarde
Porque dançou uma dança pra ela mesma
E só assim conseguiu todos os olhares
Sejam dos bêbados, de suas mulheres ou dos músicos
Dos quais de todos esses, muitos nunca saberiam dançar.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
AMOR DE TAL I
Tem patas felpudas, coloridas, macias. Um barulho hipnotizante de besta carente. Pares de tetas. Um amor. Não sou cachorro nem sou mal-amado. Ela apenas me chama e eu atendo. Acaricio seu pescoço sedoso, sua cabeça rosna em meu colo, sua língua sai da boca e o bafo quente de carnívoro chega à mim. Uma fêmea, uma mulher. Um amor, meu amor. Não ganhei de ninguém, era de minha esposa. Deve ter seus seis anos e meio de idade; três quando minha esposa se foi. Aliás, nunca fui de trair e nunca, nunca traí minha esposa, muito menos com esse bicho. Não. É mais que um bicho. Alguns meses depois que perdi a mulher, bateu saudade. A cachorra sempre andava pomposa pela casa, nela nunca havia reparado. Bela mulher! Um primor de fêmea! Não tenho filhos, nem jardineiro, nem empregada, descobri não ter nem mesmo pudor. Apenas tinha uma velha senhora, só. Troquei-a quando fria por este outro belo espécime. Fêmea. Inda bem possuir a primeira pois não fosse isso minha vida nunca esbarraria em meu novo e mais amado amor... Quando jovem tive lá minhas dezenas de parceiras, cheiravam juventude, cheiram humanas, cheiro comum e enjoado. Achei hoje neste outro segmento olfativo o nirvana, o melhor, me encontrei. E nela sempre exerço minha virilidade como nunca exerci quando jovem. Sempre numa hora certa, às 5 da tarde. Acho que a cadela acostumou-se às minhas pontualidades... Vê se não me deixa cadela, sou muito mais você à ela.
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Fui sempre de controlar as escapadas. Sou metódico qual certos funcionamentos de certas máquinas. Eu pude avistar aquele rabinho alegre me escapando pelo quintal várias vezes. Ela sempre retornava. Não era muito problema para mim, não via nenhum naqueles passeios contados no relógio, no balanço do pêndulo. Tão ansioso. Ela tinha que andar por aí sim; conferir a vizinhança, circular reluzindo no pescoço uma plaqueta bem talhada dizendo que era minha. "Pertence a 'TAL'". Notório é que nunca atrasava. Contava cento e cinquenta e nove idas casadas com cento e cinquenta e oito vindas do pêndulo. Com certeza, estaria ali. Um dia, maldito, um pouco mais barulhenta, ela saiu. Para minha loucura, minhas contas acresceram-se em mais dezenas de idas e vindas. Havia fugido? Não. Seria ingratidão. Enfim, chegou. Entrou mancando, rodeando fracamente a roseira, pisando flores, galhos e espinhos murchos. Logo corria para socorrê-la. Notei que estava sangrando um pouco e escutei latidos distantes. Malditos cães! Tratei-a e lacrei a portinhola branca que dava para a rua; jamais seria usada. Naquela noite ela dormiu tranquilamente e acredito que tenha sonhado aquecida pelo meu abraço: sorriu em sono.
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Passado tempos de semanas após o episódio final das escapadelas de minha menina, notei algo estranho ocorrendo no comportamento e no físico dela. Custou realizar que teria filhotes
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(...)
RAMALHO
"Existem pessoas que nascem más?"
P. Ramalho era menino de seis anos. Brincava e saíra do quarto para um lanche. Era moleque de boa vida, nada tinha do que reclamar. Pais bem sucedidos, sempre presentes, uma irmã mais velha cuidadosa e todas as paparicações saudáveis da sua avó materna, que morava com a família na grande casa colonial. Tudo permitia aos observadores e parentes tê-lo como um bom garoto e próspero homem de grandes valores. No seu pouco tempo de vida era assim que tudo parecia. Saiu do quarto com um de seus brinquedos na mão: um dinossauro talhado
Ramalho tomou um último gole da bebida e logo saiu do bar deixando seu interlocutor confuso por detrás do balcão. Voltou para casa, onde mora sozinho. Seus parentes foram todos mortos em mortes singulares e ditas casuais. Aos 34 anos Ramalho achou de ficar arrependido de tudo e reprimiu o seu mal. Para todos os efeitos, em sua cabeça não existia. Muitas vezes voltava à vida por breves momentos, quando batia em um gato moribundo ou queimava alguns vira-latas da vizinhança.
Não há psicologia que explique, nenhuma ciência. A essência é como uma Deusa, sempre existiu. E sou grato, pois dela herdei equilíbrio entre o bom e o ruim.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
QUE NÃO SE DIZ III
Sai, filho do homem, descola! Fui perseguido por dentro, em minhas entranhas? Sai de mim se entra. Se é fluido, sai sai, barbudo. Mas disseram que não. É preciso mais um e não é fluido. É um sopro, abstrato. Cá está? E lá sei... Só quero que saia; cá estivesse se um prurido, toque gelado, mesmo um ventinho, houvesse. Cá ocorre? Ocorre sim... É um verme, é um gelo, é uma brisa. Cadê tu? Caiu por mim e não deixou a conta, levantou uma bandeira erguida de hipocrisia, caiu na bandeira, sufocado por ela e nem aparece, não dá as caras nem nunca me invade. Começo, já comecei a desconfiar... Falo de tudo que um dia derivou de ti, ou que antecedeu teu nascimento, tua queda, tua ascensão, tua adoração.
QUE NÃO SE DIZ II
Mias licença, seu padre, se incomodo. Mas essa missa micha tu não pára de rezar. Repara o meu menino que dança com os sino desse teu pão e desse teu vinho. Repara aquela velha que cochila na madeira e baba no chão de barro. Repara aquele velho ali no canto, foi preso ontem badernando as casa velha. Repara tua boca, padre Amigo, reluzindo gozo dos jovem daquele casebre. Como sei dos que aqui estão! Sei dos jovem e da tua tara. Mas sei também que nada vale dessas tuas palavra grande, trabalhosa. Do pouco que eu sei, essas tuas falação é fato que é som,daqueles bem bonito mesmo, desses corinhos de aí, que eu sigo compassado nas minhas bota... tudo calúnia, seu padre. Tou descansado e aliviado porque daqui nunca mais que ponho os pés. Mias licença.