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domingo, 31 de julho de 2011

CHEIRO DE MARIA RONDA

Silêncio, Rondinha!
Arremetida crua é de direito
Pois o ponto de lascívia, pequeno fosso
Esculpido no tecido vagabundo
De onde estais, se mostra, acossa
Meus instintos masculinos.

Que vai embaixo do móvel?
Camundongo? Vem. Joia perdida?
Ramo da gira? Moeda rolada?
Poeira, sujeira? Vai, revista esquecida?
Racões? Fumo? Camisas de vênus?
Vem, comida? Tralha, besteiras?
Caneta? Vai rabeiro quitute alojado!?
Aquele compasso? Vem cacimba de banho!?
Tem tempo a procura
Sem luz, às escuras.

domingo, 10 de julho de 2011

Ah, Zé! Sou eu por catar poeira...
Vê que minha dinâmica é de quem apanha
Sujeira.

Pára, Zé! Não vim pra traçar cicatrizes
Na forma feminina, nem pra surrá-la...
Incrimina.

, pára, por favor, Zé!
Nunca fui ideada pra aspereza,
Crueza.

, , pára, Zé!
Sou eu delicada, de limpar ambientes
Não dentes.

, , , imploro, me larga!
Olha a haste que estala,
Pá-virada.

, enfim!
Embriagado de investidas, nos tira
A vida.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

SONHO

Lá está, na relevância onírica do último dia,
Contemplando a desgraça anti-criativa,
Pungência explosiva das estrelas,
Uma a uma, centelhas.

Acompanhante indeterminada, miúda e bela
A dividir o instante do que se acaba mundo
Evento de supernova, apocalíptico.

Mais cedo, o calendário mítico de toda a cultura humana,
Saído de brumas roxeadas, descarrilhou-se, tempo, no cenário
E manchou a realidade de fantasias.

Não podem as trompas da profecia com o imaginário de quem sonha;
Não que a Besta deixaria de emergir do mar
Que foi a primeira fera dentre muitas
Dagon tentacular por sobre toda a costa
E a Quimera noticiada fera pelo repórter:
Deixou escapar que era o fim do mundo.

Na rua, rebeldia sessentista, folclore nativo
Fiéis com medo, corcéis alados no céu amorfo
Iara a pentear os cabelos num hidrante americano vermelho
E o caos instaurado, e o gosto pelo remorso pró-ativo
Irrestrito, sem crivo normativo;
O que era anarquia na mão daqueles?
Retrógrada, opressiva, faceira, falida!
Que eram os últimos instantes dos viventes?
Ópio do descrente, cessar anunciado da existência
Dentre os construtos mitológicos da cultura.

Alguém leva quem sonha pelo braço!
Indeterminado, de jaleco branco!
E o põe numa nave de ficção científica!
Alça vôo! Pela janela, dirigíveis antigos só por passar
Avionetas primeiras, de asas fungíveis, se espatifam com a simples chuva
E a batalha dos anjos, e as naves extraterrenas
E os buracos negros, e as previsões do cosmos nas estrelas que sumiam!

De repente, sozinho no veículo, resolve contornar
Por singelos cliques cerebrais de guiar máquinas imaginárias,
Pousar no pé do penhasco maior, abismo do mundo planificado
Donde as naus se espragatam e as incertezas se acumulam.

Lá está, no seu último dia de vida
Com sua acompanhante, primeiro indeterminada
Surgida de mesmo clique dos sonhos
E que ganha forma quando beira o real.

Aponta as catástrofes estelares!
Atemporalmente, mostra todos os eventos:
Fenda minúscula de galáxia pra sua sabedoria.
As águas do mar, em ângulo reto, limpando seus pés...

Prestes a despertar, amor ante morte
Expresso nas mãos juntas, que o sonhante identifica
Ser os dedos de sua amiga doutro plano estelar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tanajuras

Eu era feliz quando um coaxar cessava na pressão de meus dedos ou um bater de asas se via sem asas, ou um miado extirpava lamúrias de idosas solitárias.
Eu era feliz quando entendia o que é ser o Deus dos humanos, num laboratório simplificado onde fui onipotente, onisciente de uma sabedoria previsível e onipresente com agulhas e dedos.
Eu era feliz quando sabia como Deus não sente remorso.
Eu era feliz quando ninguém orientava meus desejos e, solto na natureza cercada, alimentava meus instintos.
Eu era feliz quando o couro animal ardia e seus lamentos indecifráveis ecoavam no quintal.

Como muito que morre na infância
Não morreu
Como maioria que se deixa pra trás
Não deixou

Mas eu deixei de ser feliz porque crescemos
E deliberadamente estou errado aos outros olhos
Minha profissão de Deus não cansava nem um pouco
Porém, cresci, e sua importância implodiu.

---

Hoje choveu como não chovia há tempos.
Estou só no meu quarto, pela janela entraram muitos insetos
Gargalho disposto, pois acabo de descobrir que ainda sou feliz.

sábado, 5 de setembro de 2009

Minerva, a Morte e O poeta
São todos os dias que escuto lá fora
Os grandes silêncios, a trova do escuro
E olho no negro, pois tento me achar.

E fecho a porta e sento na cadeira
Olhando a janela como se soubesse o que fosse acontecer
Espero bicadas! E que possa exaltar o visitante.
O conheço por meio do poeta.
Foram suas palavras que me fizeram abrir logo a janela.
As bicadas são dispensadas. E olho para onde deveria olhar
Como mandam seus lamentos por sobre velharias inteligíveis.
Temo que o conjunto de conhecimentos antigos e os renovados
Não possam com a beleza de seu som desconhecido,
Nunca mais.

Fundidas curiosidade máxima e paixão
No vôo do profeta em criatividade verdadeira
Espero O corvo como o que esperava Lenora
Mas só podia escutar que nunca mais.

Situações distintas, pois chegará,
Aplaudido por mim e pelo poeta
Na marca que não pode ser datada em meu destino
Onde a escuridão realiza-se em silêncio
E todo o conhecimento morre em suas garras.
E à tudo, direi
Nunca mais.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

RONDA DE ABUTRE

Admirável ave, a gigante, negra
A qual dirijo olhar de respeito e satisfação
Aquela que não possui a tristeza odiosa do corvo
Ou a melosa felicidade daqueles que assobiam
Mas a sorte de ser o derradeiro caçador.

Oferece, pois, teu dorso, Abutre
Não me incomoda teu odor cadavérico
Nem tuas plumas pegajosas
Aproveito tua ronda íntegra e sincera
E sei que seus globos quase vermelhos entendem meu desejo de morar no teu ninho de palha, desejo de adormecer na tua ausência, na maciez do vegetal arquitetado
Acordar apenas na hora da caçada,
Da montaria alada ser o montador como preveêm vários sonhos inquietos que deixam o plano real para habitar o mundo fantasioso dos sonhadores em decomposição.
Desçamos, pois, Nobre, para a caçada!
Voa que não temo a ausência de rédeas
O equilíbrio é mais que perfeito...

Da diferença com o corvo:
Ave, nunca dirás nunca mais!
Pois não foste ensinada a falar com humanos
Nasceste para compreender-me e comigo viver
Ave, nunca dirás nunca mais!
--
Ronda circular decrescente
Guiada totalmente pelo resto de luta
É o que almejo e seus globos vidrados
Ao cair sobre as sobras etéreas
Assisto minha montaria alimentar-se dos sonhadores mutilados
Aproveitando apenas o odor e sua perversidade
Porque se deixasse teu dorso, Nobre ave
Assim como eles, me perderia
E não faz parte de meus planos abandonar teu ninho.

Da facilidade da caça:
Presa estática e digerida
Sou parasita com a felicidade de habitar o último da cadeia
--
Não saberia precisar as épocas, mas existem as quais a criatura põe ovos. Na primeira ocorrência, por curiosidade (talvez um pouco de precaução), imediatamente rompi a casca rígida do imenso invólucro, encontrando disforme e quase liquefeito, um homúnculo que possuía aparência semelhante à minha, mesmo sob horrendos olhos. Engoli tudo. Quando o Abutre retornou para a próxima caçada, não pareceu importar-se com sua pretensa cria abortada, apenas baixou-se afim de que o montasse... E assim faço com todos os ovos. Creio que a Nobre só precise de algum montador que lhe forneça o equilíbrio mais que perfeito para que chegue à presa.

Do dia da perdição:
Quero que minha atual figura etérea não esmoreça ou suma com o conseguinte relato. Também desejo a quem tenha acesso ao mesmo, sorte, para que não perca o bom senso como eu o fiz. Enfim pude conhecer toda a nobreza do Abutre. Embrenhamo-nos numa das caçadas rotineiras. Pousou sua imensidão no local decaído e deu início ao seu banquete. Observei com glória, como sempre observava, a decomposição, mastigando seu odor. Dentre os corpos carcomidos, (Perdoe-me quem quer que possa perdoar-me!), observei um ser diferente destacando-se da infestação do podre, do horrível. Abraçava uma pluma negra, morto resoluto. Só compreenderia o poder de seu perfume pestilento àqueles que o sentissem! Mas o Abutre parecia ignorá-lo. Seduziu-me este falido corpo morto à perdição, pois saltei do dorso da Ave para melhor observá-lo, senti-lo. Aproximei meu rosto e que horror, quem seja: vi-me abraçado à pena negra; via uma imagem de mim mesmo. Prontamente o Abutre guinchou medonho como nunca o fizera. Não haviam mais corpos. Percebi que meu corpo desfazia-se na podridão que é decompor-se, ao mesmo tempo que mais acima milhares de homens montados em abutres rasgavam os ares com seus olhos sangrentos mirados na minha carne corrompida. A imagem morta abriu os olhos, olhou meu estado e sussurrou com a voz que me pertencia: " Só o montador pode matar a montaria". Deu-me então a pluma para que a abraçasse. O fiz e não sentia mais a minha matéria. A cópia, sim, desfez-se em repugnância. Sentia meu novo corpo transparente e meu perfume, detestavelmente atrativo. Desciam outras aves em direção aos restos de minha imagem. Foi quando o Abutre, quem seja, aquele que me acolhera, abriu as asas gigantescas como a proteger suas crias embora parecesse conformado com a destruição iminente. Rasgaram, abutres e homens, a Ave, em plumas e carne decomposta enquanto seu montador abraçava uma de suas penas observando a própria caveira ser totalmente ingerida pelos mesmos abutres, montarias dos homens. Restam meus sinceros lamentos de fantasma.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

RAMALHO

"Existem pessoas que nascem más?"

P. Ramalho era menino de seis anos. Brincava e saíra do quarto para um lanche. Era moleque de boa vida, nada tinha do que reclamar. Pais bem sucedidos, sempre presentes, uma irmã mais velha cuidadosa e todas as paparicações saudáveis da sua avó materna, que morava com a família na grande casa colonial. Tudo permitia aos observadores e parentes tê-lo como um bom garoto e próspero homem de grandes valores. No seu pouco tempo de vida era assim que tudo parecia. Saiu do quarto com um de seus brinquedos na mão: um dinossauro talhado em madeira. Saiu mordiscando o seu polegar, o único vício daquele anjo. A casa era enorme, arquitetada para nobres, valiosa como pode ser uma casa, pintada em branco por escravos pretos havia bom tempo. Quando lhe ocorreu que teria que descer para comer biscoitos com o seu leite natural, porque não comera nada no almoço, talvez voltasse correndo para o seu quarto esperando que escurecesse e seu pai chegasse, lhe pusesse no colo e descesse feliz os vários degraus contando piadas repetidas. Mas não voltou, pois viu a sua avó que iniciara a descida dificultosa para o cômodo inferior. Era bem velha a senhora; velha e encurvada, embora a sua bondade e vontade crescessem contra o caminho natural sob o qual andamos em direção a morte. Suas mãos já não eram as mesmas como no tempo dos negros escravos. Velha e duma bondade infinita e encurvada e descia as escadas. Ramalhinho, desistindo de sua preguiça, caminhou para trás da mulher. E cuidou para que não notasse nem um barulho. Sem saber, foi ajudado pela velha quase surda. Segurando no corrimão, sua avó ia no terceiro degrau. Ele, abrindo um sorriso que não era nem um sorriso de alegria ou de menino travesso, esperou que ela levantasse um de seus pés e fez com que rolasse até o hall. Também jogou o seu dinossauro de madeira escada abaixo com a mesma expressão. "Vai!". Não era menino quem falava. Era a sua própria essência; esta nunca foi menina porque sempre existiu. Voltou para o quarto e foi brincar com seus outros brinquedos.

"Não. Não existem."
Ramalho tomou um último gole da bebida e logo saiu do bar deixando seu interlocutor confuso por detrás do balcão. Voltou para casa, onde mora sozinho. Seus parentes foram todos mortos em mortes singulares e ditas casuais. Aos 34 anos Ramalho achou de ficar arrependido de tudo e reprimiu o seu mal. Para todos os efeitos, em sua cabeça não existia. Muitas vezes voltava à vida por breves momentos, quando batia em um gato moribundo ou queimava alguns vira-latas da vizinhança.







Não há psicologia que explique, nenhuma ciência. A essência é como uma Deusa, sempre existiu. E sou grato, pois dela herdei equilíbrio entre o bom e o ruim.






sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

PANTEÃO DOS INCRÉDULOS

Salvem-me os que se dizem que são salvos
Mas os que valem não são os que aparentam
Pois tremo, temo em ouvir "Eu salvo!"
E, se gritar, morrer antes que apareçam.

É verdadeiro que só salve quem te salva
Quem te saúda, quem te bebe, quem te adora
Porém o grupo que defendo, isso te salva
E não preciso ajoelhar a toda hora.

Defendo a Boa Vida, a Retidão e a Morte
Pois que são destas que eu vivo em plenitude
Não tolhem, não limitam essa minha sorte
Posso ter fé sem destroçar tal atitude.

Crendo neste Panteão dos que se dizem incrédulos:

Irei vencendo a breve brecha que respiro
Irei salvando meus joelhos do batente
E sempre, sempre dizer coisas de beleza
Pois palavras são o primeiro fosso onde me atiro.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O DONO DO RIO

'Oh que rumores vagos!
Tó jamais caiu! Muito menos por minhas mãos. Eu juro.
Não conseguiria detalhar o quão bondoso é aquele Deus.
Pobre Tó! Eu te juro, Pai! Deuses têm corpos?
Se os têm, que procuremos! Tó jamais caiu!
Por acaso tenho sangue de Deus em mim resvalado?
Tó! Tó! Depressa, Pai, também grite!
Tó! Tó! Se tivesse asas, buscaria nos céus.'
Surgiram Asas.
'Tó! Tó! Alto! Muito Alto! Segure-se, Pai.
Tó! Tó! Se tivesse olhos de águia, perseguiria seu rastro'
Seus Olhos cresceram.
'Tó! Olha que vejo tudo! Tó!
Tó! Me faltam ainda outras cabeças para que grite como cem'
Seu corpo avolumou-se e brotaram 99 Cabeças.
'TÓ! TÓ! TÓ! TÓ...'

O chiado infernal de cem gargantas
Explodiu de imediato a cabeça do Pai:
O quase domador daquela fera.
O corpo caiu decapitado pelos ares
A se terminar em um vasto Rio.
A besta alada quando isso notou, parou de gritar
E desceu a sua grandeza para o Rio.
Segurou o corpo e todas as cabeças choraram pó
O Rio imenso, foi se alastrando
Transbordou nos juncos, quase cobriu a besta
Apenas todas aquelas cabeças que não afundaram.
O pó fez o Rio crescer e ficar dourado
Pois ali, naquelas àguas, era domínio de um demônio
Toda a tristeza que ali pairava era bem-vinda.
'TÓ! TÓ! TÓ! TÓ!'
E desta vez não foi inútil pois o grito era de um nescessitado
Um estampido nos ares, uma forma escura descendo soberana
Uma névoa pontilhada por olhos castanhos.
'TÓ...'
Era uma massa tão grande que pra cada Cabeça da besta mil olhos estavam direcionados. Implacável como tem de ser um Deus, vendo a teimosia da besta, o gasto de poder em Asas, Olhos, Cabeças, a dúvida do caráter da fera, Tó lançou raios de todas as brechas do que era, névoa de olhares, naquelas 99 cabeças salientes.
Estas caíram uma a uma no Rio.
Nisto, as águas foram secando, as Asas e os Olhos da besta caíram
A névoa desfez-se, os olhos sumiram, o homem voltou a ser homem
E passou a dormir encolhido naquele vale seco
Ao lado de uma outra criatura lilás humanóide que agora também dormia
Esta que era um demônio, o dono do Rio.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

CAPA

Dissimulação é escape onde definho
Passível duma humilhação recém-chegada
É porque sempre vesti de fino linho
Embora, saiba!, ser tais vestes desgastadas.

É a capa filha, que oculta meus pêlos
Estandos sujos, não, ninguém consegue ver
Pensariam, pensam estar os meus cabelos
Limpos, sedosos embora cansem de feder.

O riso fácil, como dito, assim saído
Se vem chegando numas lágrimas enxutas
Mascara com brilho e saliva e alaridos
A verdadeira vil tristeza, esta mais pura.

Ah filha minha, visto capa de horrores
É tão pesada, sinto muito nunca sai
Nem poderia, meus pêlos são tão podres
Desgostaria em hora, em ato de teu pai.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

VASO

A tortura da beleza a voz me cala
Em ecos medonhos de olhares milhares
A fazer de mim torto, só abala
Faz a mim querer sugar doutros ares.

São medidas incultas, sim, covardes
É tentar isolar a dor seca num vaso
Frágil, fino, quebra se feito alarde
Bem melhor enterrar não muito raso.

Travaria entre mim, haveria essa luta
Se cavasse tal fosso, Ai tristeza!, me mato
Cairia de peito na terra, na luta
Abriria feridas nos cacos do vaso.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A SINGULARIDADE DUM MAL-CHEIROSO

Falando a verdade, trabalhar em tão exaustiva e ingrata função naquele restaurante fora, no começo, um dos piores dramas na vida do personagem. De nome, Omar. Carregava frutos do mar, o cheiro disso também carregava nas costas, que inclusive era mais pesado que os frutos em si. Era um menino Omar de meia idade, cabelos ralos e pouca conversa e muitas chacotas. Contra o próprio. Antes dos peixes, a própria química corporal traíra o infeliz em várias, e todas, em todas várias vezes que já tentou aproximar-se de mulher. Traçou esta meta para si mesmo desde muito novo; menino, apaixonou-se por uma e fez questão de lhe esquecer o nome depois do que ocorreu. Nada ou muito pouco foi sabido do fato. Do pouco, houveram gritos, alguém comentara de uma menina, futum, asfixia e dum moleque bem ligeiro desaparecer correndo pelas ruas de baixo. Dali, foram todos insucessos e vários. Tratou logo de abandonar sua mãe, seu pai, sua avó, sua irmã que sempre dirigiam para ele sons nasais; até o cachorrinho da família, um branco, pequeno, fingia ter um gato no quintal e fugia das carícias do Omar. Logo o cachorrinho ocioso que nunca saía do canto pra nada. Vieram as obrigações de indivíduo moderno e montada vinha também a necessidade de trabalhar. Eis que aqui o vemos. Carregando frutos do mar, o Omar. Sem esquecer do que era, tentou cozinheiras, garçonetes, tentou até um garçom cabeludo depois de meia garrafa duma bebida importada solta em uma mesa vazia; voltou sangrando pelo nariz, envergonhado com o equívoco. Ser contrário era tão essencial para o homem que não havia nem banho, nem reza que aliviasse; e agora tinha também o cheiro dos frutos do mar, Omar! Neste exato momento em que carrega alguns quilos do mais requintado salmão, estático, ele morre por dentro. Morre Omar, o galã mal-cheiroso e fracassado. Com os seus botões, tão subestimados mas muito rápidos, raciocinou durante exatos seis segundos enquanto baixava para apanhar o seu fardo e soltou: Morri! Não gritou nem disse isso com o seu mal-hálito sempre evitado; apenas pensou. Não importavam, não o fariam nunca mais as mulheres. Esqueceu disso e morreu. Dali deixa que os peixes caiam no chão, escolhe o cutelo mais brilhante que vê por cima da louça suja, começa a espalhar o seu cheiro e dor pela cozinha, derruba uma primeira cozinheira sem mesmo grito, parte para a segunda com o mesmo cutelo ocultado pelos sons de fora, terceira e já passa a gostar do ofício, esconde o cutelo atrás de si, grita pelo garçom cabeludo, espera-o atrás duma porta de dobradiças, surpreende e retalha o nariz do moço, encara o rapaz barulhento em meio ao sangue e peixe, golpeia novamente eliminando-o. Tudo o que podia parecer cômico na vida do Omar ali ele deixou, quando saiu pelos fundos empunhando o cutelo, cheirando mal como nunca havia cheirado antes e aos berros, rodeado por moscas, gritou muito alto que havia ressucitado.

Luiz Victor

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

MATA URBANA II

Desprovido de alma, de pensar
Sem mesmo roupas, fraco no andar
Mutilado seu sexo, era contramão
Luzes altas cortavam toda direção.

Cadência forte, as luzes que mexiam
Em duplas, cabeça confundiam
Por pouco erravam o nosso andarilho
Desviavam no ato, pra elas, empecilho.

E na mesma cadência, vinha mal-estar
Dor imensa, fraco no andar
Membros estendidos, era um pedido
Que nem mesmo neste estado era respondido.

O fez pensar primeiramente no prazer da carne
Olhar pra baixo e não tê-lo, feria arte
Consequente fraqueza que chegava
Sangue se ia em medidas vastas.

Desprezando a vil compaixão humana
Há tempos fechada no conceito do eunuco
Em mata fechada, passa uma auto-estrada
E nela se morre, e nela se mata.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

VELHA

Se vira, temo.
e se temo, grita.
se grita, e tremo, já vira.
Odiáveis pêlos que se vira, podres
E quando podres, sempre o são, caem...
Torna a virar, diabo! Te esconde, velha!
Simetria te errou, e feio
É o errado, o nojo encarnado
O seboso, é animal escarrado
Que quando vira, temo
Quando grita, tremo
E sendo assim, velha, não mais se vira!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A AMA

Toda forma se quebrava em meio ao fogo
E chegavam gritos, choro...
Coro de agonia.
Frágil pele que ardia
Sentia as labaredas, presas em lascas de madeira
E no vestido, rapidamente engolido.
Por passar o corpo nu em meio às chamas
Tocar nas lascas, procurar a cama
Acompanhar o choro da criança
Salva-lá-ia da angústia, a Ama.
A noite negra como a devotada escrava
Oferecia o gás, soprava, inflava o fogo
Rios e rios corriam de fumaça
E sem nenhum ímpeto verdadeiro, do lado de fora
Sem vontade, sem cor, sem coragem
Chorava um choro seco Sinhá...
Só assistia.
Enquanto a Preta ardendo a vasculhar
Esquecida das feridas e dos chicotes
Das mãos leitosas e enrugadas que batiam,
Apenas buscava o bebê.
Nua.
O inferno lambia suas costas, quando acha...
O frágil ser imóvel, sem mais lamentos
No chão...
Preto como a Preta, quente como as chamas...
Imóvel e inútil.
Sem sucesso, a escrava nua deixa a casa
Vai para fora, para o jardim, chorosa.
Sinhá olha a mulher de mãos vazias
Sem esperanças, queimada em demasia
Cabelos chamuscados, seios feridos
Boca sem expressão, nenhuma palavra
E num misto de ódio e tristeza
Grita: "PRETA!"
No momento casa já caia, noite tudo engolia e a fumaça pelo céu partia.
-------------------------
Escoada para a verdadeira heroína foi a culpa
Entregue a ela de bandeja, pelo chicote e pelas mãos
Cravada sem argumentos... e assim pensava a heroína.

Pela manhã, fumaça ainda alta, cinzas voavam.
Todos assistiam a negra presa ao tronco.
Sinhá, livre, vingada, sentia-se fértil e equilibrada
Com um sinal de mão, ateiam fogo na Preta
Para que este terminasse o que havia começado
"E que queimasse e que doesse!", pensava a escrava.
Com rápidas visões de uma terra verde e vasta, brancos, sangue, um navio, açucar, senhores brancos e seus desejos, senhoras e seus caprichos, negros e suas correntes, uma criança que amara e por fim o Fogo, livrando o povo branco da coragem e dos cuidados excessivos da Ama.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

VIOLAÇÃO

Certo da ausência de todos
Abre porta, abre porta, abre gaveta, abre diário.
Delicia-se com memórias e confissões
Perdido naquela noite, quarto alheio

Questionável atitude mantém
Preso à cama, preso à invisível lama...
Molha confissões e memórias no pranto
Quarto alheio, um barulho

Pergunta-se assustado, vê luzes pela sala
É ela.
Abre a porta.
Um susto, outro barulho, minha alegria
Violação.

Luiz Víctor /começo de 2007/

sexta-feira, 23 de maio de 2008

TERRA TRISTE, MAGRA

"É pena, Velho.
O venerado gado já não corre,
As moscas já nos deixaram,
O sol castiga e já aparenta duplicar força.
Pena, Velho..."
Face escura, aleijado era só risos...
"Siô, na mais triste e magra terra já vivi
E foi lá que membros eu perdi.
Poderia ser tão ruim assim?
Um Velho o diz que não, Siô o diz que sim.
Mas na mais triste e magra terra já vivi...
Terra de esqueletos de gado,
Terra de gente inexistente,
Onde tudo que há é terra, onde nada que mexe é gente.
É pra lá de rio, é pra lá de água, é pra lá de mente...."

"Bobeira, Velho. Me conta....
Qual razão de não ter membros?"
"Siô, Velho não mente!
Foi algo chamado deste lado.
Ou destilado... Sou isento de culpa.
Fato é que depois de consumido saí de casa,
Deixando mulher, filho e algumas três moedas.
Risível. Mas tal qual é a vida, Siô.
Foi pra nunca mais voltar.
A noite, clara, fez da viagem sem matéria
(Talvez um cascalho, ou um vestígio de poeira... coisa pequena, sem valor)
Algo maior do que o trôpego viajante e pouco menor que a errada estranha sede do mesmo.
Fez-se acontecer após um baque surdo e uma garrafa que rolava.
E a Lua castigou o caminhar do intelecto, queimando como Sol queima.
Ardendo. Como só o Sol arde. E apenas Sol o faria.
Mas, Siô, era uma caminhada sem matéria, já foi dito
Fechava o dia em vários tempos e tempos de vários dias.
Começava tudo na mais triste e magra terra.
Lá vivi.
Sentia a letargia conhecida pela Química
E o tremor me tomava, por vezes
E era quando a terra se levantava em tempestade
E era quando seus rios nauseantes por dentro de mim corriam
Era quando transbordavam em insatisfação e desespero...
Quando era, Siô, o cessar da corrente?
Era quando a nascente já não tinha mecânica externa para estar em posição.
E aí era noite. Noite escura, de passos, rastejos bem marcados.
De conflitos entre terras, moradores que só desejam novamente luz do dia.
E ela chega. Pra novas tempestades e noite.
Na sequência, dia.
E o cliclo perpetua, cliclo imposto pela vontade.
Pela falta desta, na verdade.
Passava rápido o tempo, terra mudava.
Mais negra, sombria. Mudada, murcha.
Qual exterior estava.
Descuido que fez de vilã, não minha própria idiotice
Mas algo bem pequeno que os mals contatos transmitiam.
Chegara a um velho doente. Doença séria.
Dia, olho membro que não mais me servia.
Noite, outro cai em função de putrefata circulação
Dia, cai uma base e o chão me abraçava.
Noite, vai o último em inútil espasmo.
Gritei. No grito, veio resgate. Membros que me erguiam.
Membros que me tocavam.
Quando acordei, já não estava na mais triste e magra terra
Deixara por lá meus membros e deste lado restou a vitória.
Digo destilado.
E o Siô ainda me perguntará, me antecipo
Foi minha vontade restabelecida?
Não, Siô. Não.
É apenas uma questão da mecânica que move a nascente,
Que agora não tenho, que para o vilão perdi.
Aleijado sem escolha, sem corrente."


Luiz Victor 23/05/08

sexta-feira, 7 de março de 2008

Amor de verme

Por vezes ignora
Mas de fato a mantem
Culpa quando vai embora?
Nunca, grita-lhe alguém

Alguém que sempre gritava
Alguém que sempre sofria
E de fato, escoltava
Minha culpa, minha agonia

Desassocia-las não podia
Porque matei-a, pai!
Uma por outra e só isso
É o que resta nada mais...

Que valia palavra ao seu toque?
Que valia um grito ao seu beijo?
Pois te digo, pai: Tudo....


Luiz Víctor

Egoísta

Receio.
O medo ultrapassou os limites
Mas ela chora, grita...
Ocorre uma batalha dentro de mim
Voltar? Morte como consequência...
Seguir? Como posso abandoná-la?
Difícil. Mas ela não tem sorte.
Sigo...



Luiz Víctor

Regresso de uma ex-máquina

Tenta não ser o que te pedem
Simular o que pensa ser real
Basta! Acorda!....................
Sim!
Agora tenho você de verdade
Posso tocar-lhe esperando uma reação única
Não fuja novamente
Fica aqui! Nunca mais imite-os!
Nenhum deles!
Todos automatizados...
Fica!



Luiz Víctor