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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O instrumentista

Tenho que considerar algo antes de narrar próxima história. A música é tão necessária como as palavras e narra com melodia os sentimentos humanos. É uma das expressões indispensáveis. E existem os tipos de música. Quando escuto 'tal', o efeito é hipnotizante, faz querer deixar o chão. Se escuto 'tanta', o efeito é outro, mas considerável, pois faz querer voltar tempos. Os instrumentos também são dotados cada um, quando exercitados, de vozes cifradas. Não importam as notas, ou quem os toque pois todo o barulho que lhes deixa é música. É música quando uma criança sopra uma flauta, bate nas cordas dum violão. Que seja ruim, porém música. E é sobre a peculiaridade de certo instrumento a narrativa. Não queira saber de onde provém a história, nem se é verídica... Mas eu vi aquele homem e não foi nada comum ver seu rosto fundo, sem expressão, diferente de tudo e falando coisas que não se falam. Um horror! Chamava-se Gabriel. Nascera enfim numa família normal, mas isso não importa, nem sua infância. Quando atingiu a idade adulta atirou-se de cabeça sem nenhum incentivo no mundo musical e era um medíocre intérprete de piano, tocava algo de gaita. Apresentou-se muitas vezes em bares aqui mesmo na rua onde moro. Nunca interessei-me de vê-lo, muita gente também não e isso não foi empecilho para que tocasse alegre as suas melodias fracas, escritas em casa. Depois de um tempo sumiu, pois recolhera-se ao seu quarto, com o intuito de estudar música e tocar sem parar o piano. Chegou um dia incomum em pleno verão, pois fez-se muito frio neste nosso bairro; alguns disseram ver até granizo em seus jardins. Gabriel ainda encontrava-se no quarto e ouviu um som que vinha de fora da casa. Era um acorde dum baixo e aquilo reverberou na sua cabeça como fosse um sino e ele quebrou a gaita que estava nas mãos, vítima duma intensa dor. Recuperado, saiu depressa pela porta da frente e deparou-se com o instrumento deixado no tapete. Buscou na rua deserta alguém que ali o abandonara, jurou ver uma pessoa no final direito mas deste mesmo lado veio um vento muito gelado. Pegou o baixo e entrou na casa. Parecia comum, era negro, cordas absolutamente normais, porém não tocou naquele dia lembrando-se da dor cruciante em sua cabeça. Deixou-o encostado no móvel da sala, foi tentar consertar sua gaita. Não conseguiu e foi dormir. No outro dia acordou bem mais cedo que de costume para um 'vagabundo metido a artista', como dizia seu pai. Atraído por algo na sala. Pelo instrumento abandonado. A forma como o raio de sol refletia-se nele, aquelas cordas comuns tão necessitadas de toque. Nem lembrou-se da dor, o instrumento o fez sentar na cadeira e pegá-lo; de alguma forma mandava no músico. Excitado sem saber porque, mencionou tocar o primeiro acorde e quando o fez perdeu-se para sempre. Tocou e tocou naquele dia. Sem parar suou sem descanso a liberar aqueles sons não mais doloridos. E agora eu que digo que o baixo é liberador de som tão perverso, o instrumento mais perverso e aquele era o pior deles. Melodias embargadas de dor foram tocadas e cantadas com vozes de línguas mortas. Com o cair da noite, o clima novamente tornou-se frio mas não naquela casa. Quanto mais tocava mais seus olhos esbugalhavam-se, mudavam de cor constantemente no que parecia ser o intermédio de sua música. Aquilo entrou pela madrugada, seus dedos não conseguiam deixar as cordas em paz, sua voz tornou-se como a voz de muitos maldosos juntos. A partir daquele momento para cada nota que tocava uma figura lambida por fogo deixava o instrumento e juntava-se no coro de vozes. E o clima foi aquecendo até que a música estava sendo cantada por labaredas e o crepitar dos móveis e instrumentos formava a batida. Tudo queimava mas ele continuou a cantar. Nesta hora já amanhecia e encontrava-se numa redoma invisível, livre do fogo, onde ainda tocava. Até que descuidou-se do instrumento e deixou que caísse no fogo. Foi quando deu um grito tão horrível que matou vários animais da vizinhança, estilhaçou vidraças próximas e fez com que saísse pelo seu peito uma figura lambida por fogo. Esta caiu diretamente sobre o baixo que já ia queimando nos seus pés e acabou por finalizá-lo em estilhaços. Já chegavam os bombeiros e cuidaram de apagar o fogo. Nesta hora eu lá estava como muitos de meus vizinhos. E vi como retiraram aquela criatura enrolada em panos. Intacta. Porém mudada. Não era mais humano, pois era oco de música e sua alma o havia abandonado. Louco, gritou muitas línguas grotescas para todos como fosse um animal... Engraçado. Não mais esconderei isso de você, leitor, porque este escrito deixo jogado em qualquer local por onde passo. Esperei que todos saíssem do local, entrei nas ruínas e procurei as cordas intactas. Forjei um novo baixo e tomarei outra alma, pois fora eu que deixara aquele instrumento na porta do infeliz. Mas vocês nunca irão me pegar, pois acreditar na minha história é como acreditar em outras tantas besteiras. Sigo elaborando meus instrumentos e contando e levando almas para o meu tão temido e odiado Pai.

ao gênero!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Sombra...uma parábola EDGAR ALAN POE

"Vós, que me ledes, estais vivo; mas eu, que escrevo, há muito declinei em meu caminho para as regiões das sombras. Porque estranhas coisas ocorrerão e coisas secretas serão reveladas; e muitos séculos terão decorrido até que os homens leiam estas memórias. E, quando as virem, alguns não lhe darão crédito e outros irão duvidar; contudo, uns poucos encontrarão razões para meditar sobre os carcteres aqui gravados com férreo estilete.
O ano tinha sido de terror e de sensações muito mais intensas que o terror, para o qual não existe nome sobre a terra. Pois se sucederam muitos prodígios e muitos sinais e. em toda parte, sobre o mar e sobre a terra, estendiam-se as asas da Peste. Para eles outros, doutos na leitura das estrelas, não era estranho que os céus revelassem uma fisionomia de desgraças; mas, para mim, o grego Óinos, e para os meus companheiros, era evidente que havia chegado a alternação daquele ciclo de setecentos e noventa e quatro anos, em que, à entrada de Áries, o planeta Júpiter entra em conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito característico dos céus, se muito não me engano, era visível não apenas na órbita física da Terra, mas, igualmente, nas almas, na imaginação e excogitações da humanidade.
Sentados em volta de algumas garrafas de vinho tinto de Quios, na sombria cidade de Ptolomais, formávamos nós, à noite, um grupo de sete pessoas. Não havia, em nossa sala, outra entrada que não uma enorme porta de bronze, que havia sido fundida pelo artista Corino; era de rara compleição e estava trancada por dentro. No sombrio aposento, negras cortinas alijavam-nos da visão da lua, das fúnebres estrelas e das ruas desertas. Mas o presságio e a lembrança do mal não podiam ser excluídos. Em torno de nós e dentro de nós coisas havia que não podem ser descritas – coisas materiais e espirituais: uma atmosfera pesada, uma sensação de sufocamento, de ansiedade e, sobretudo, esse terrível estado de existência em que os nervos experimentam quando os sentidos estão vivos e despertos, enquanto as faculdades da mente estão inativas. Um peso mortal nos afligia. Caía sobre os nossos corpos, sobre os móveis e sobre os copos. E tudo era depressivo e tenebroso, salvo as chamas de sete lâmpadas de ferro que alumiavam nossa orgia. Alçando-se em altos e delgados espectros de luz, permaneciam ardendo, pálidas e imóveis. E no espelho que o seu reluzir formava sobre a mesa redonda de ébano, em torno da qual nos reuníamos, cada um contemplava a palidez de seu próprio semblante e reparava no inquieto brilho dos olhares de seus companheiros. Entretanto, ríamos. E estávamos alegres a nosso próprio modo histérico. E cantávamos as canções de Anacreonte, que eram ensandecidas, e bebíamos muito, ainda que o vinho púrpura nos lembrasse a cor do sangue. Porque havia outra companheiro ali na sala: o jovem Zoilus. Jazia morto, estendido e amortalhado, como se fora o gênio e o demônio da cena. Mas... Ah! Ele não participava de nossa alegria, salvo o seu rosto, convulsionado pela Peste, e seus olhos, em que a morte apenas havia apagado a metade do fogo da peste, pareciam ter um certo interesse no nosso júbilo, os mesmo júbilo que quiçá sintam os mortos por aqueles que irão morrer. Mas ainda que eu, Óinos, sentisse que os olhos do defunto estavam fixos em mim, obrigava-me a não perceber a amargura de sua expressão e, enquanto contemplava fixamente as profundezas do espelho de ébano, em voz alta e sonora cantava as canções dos filhos de Téos. Mas, pouco a pouco, minhas canções foram cessando e seus ecos, perdendo-se nas sombrias cortinas da sala, minguaram até se tornarem inaudíveis, e desvaneceram-se completamente. Mas eis que dentre aquelas cortinas, onde os ecos do canto morriam, penetrou uma sombra obscura e indefinida. Uma sombra como a da lua quando se inclina no céu e assume a fisionomia de um homem; mas aquela não era a sombra de um homem, nem de Deus, nem de deus da Grécia ou da Caldéia, ou mesmo do Egito. E a sombra postava-se sobre a entrada de bronze, por baixo do arco da porta, sem um movimento, sem dizer palavras, e ali, imóvel, deixou-se ficar. Se bem me recordo, os pés de Zoilo, amortalhado, voltavam-se para a porta na qual a sombra descansava. Mas nós, os sete ali reunidos, tendo visto a sombra, no momento em que ela avançava sobre os cortinados, não nos arrojávamos a contemplá-la fixamente, senão baixamos os olhos e miramos as profundezas do espelho de ébano. Finalmente eu, Óinos, balbuciando em voz baixa, perguntei à sobra qual a sua morada e seu nome. E a sombra respondeu:
“ Eu sou a SOMBRA e a minha morada jaz nas proximidades das Catacumbas de Ptolomais, junto às lúgubres planícies de Helusão, que margeiam o imundo canal de Caronte.”
Então, os sete nos levantamos de nossas cadeiras, tomados de horror, trêmulos, pálidos, porque o tom de voz da sombra não era de um único ser, mas de uma multidão de seres e, variando em suas cadências, de uma sílaba para outra, penetrava obscuramente em nossos ouvidos, com inflexões familiares, e bem recordadas, dos muitos milhares de amigos, que já morreram. "