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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

CONTO

Era belo e contrário. Afetado. Era tanto que nem gostava de permanecer em espaços com muita gente, de braços agitados ou passos muitos. Evitava comemorações, andava na sombra, evitava torneios, assistia de longe, evitava falar mas gostava de ver e andar. E suas andanças eram tantas, com diversos destinos de relva, de montanha, de água, de campos de areia, de lendas, de aventuras, que já perdera a medida das milhas pisadas... Um afetado belo contrário aventureiro, que limitava a sua labuta nas pontas de suas botinas pesadas. Foi tal que numa dessas andanças, saído de um condado aconchegante, caindo na incerteza que eram as estradas em dada época, seguia tranqüilo com a Lua na sua alegria reluzente de quando cheia e murmurando uma velha cantiga falada rouca sobre os encantos daquele astro. Ela fazia bem seu papel, iluminando, ele agradecia como fora ensinado. Levava da última estadia só saudade de gente com as quais nem falara, que só havia observado e caído nos encantos mil daquele povo humilde. Eram suas aventuras. É morbidez, é monotonia, pensariam alguns. Mas, refletindo no seu caminhar, chutando pedrinhas sob a luz, descobriu que as suas aventuras imaginadas de amores, princesas de vestidos curtos e sujos, heróis com cutelos melados de banha de porco, dragões embriagados e barbudos, ogros valentões e bem penteados, bruxas palpiteiras e observadoras, eram sim as grandes, maiores aventuras. Eram imensas; incabíveis e infindáveis. Nunca tocara uma espada, uma coroa, embora fosse sua alma tão viajada como a de qualquer outro aventureiro. Fazia de simples fatos uma tempestade cheia de magia, fantasias das grandes e o resultado era sempre distinto,inesperado; dessa tempestade saiam as vítimas e as construções e as suas ocorrências mais ricas, muito melhores, sem perder as essências respectivas, de fato.

Não entendes? Vem, entremos nesta noite de luz nas redondezas e na mente deste peculiar aventureiro. Primeiro te darei a nossa versão; narrarei o que nós conseguiríamos ver diante da seguinte situação. Depois, a visão do andarilho. Repara no contraste de nossas óticas... Bem, sem mais delongas:
Caminhou mais do que devia, ainda caminhava. Aproveitava a Lua, a noite e não parava ou sentia dores ou mostrava cansaço ou vontade de parar. Andava. Há algum tempo já devia ter parado e adormecido na beirada da estrada, continuar no outro dia pela manhã. Mas a Lua... Bem, você já sabe da Lua. Nestes alguns quilômetros que acrescentou em seu caminhar, deparou-se com um casebre que ficava bem próximo da estrada. Notou um menino chorando na frente da casinha, sentado numa escadinha de madeira carcomida. O viajante escondeu-se por trás dum arbusto denso, brechando por entre as folhas o garoto. Como foi dito, e espero que me tenham compreendido, nosso aventureiro não era de meter o bedelho diretamente no que ocorria; não gostava de dar as caras, era isso. Ora, uma criança chorando à meia noite no pé duma estrada; fraca iluminação vinha da casa, de uma vela provavelmente. Era uma vela mesmo, pela intensidade da luz. Chorava com a face voltada pra baixo, apoiando seus cotovelos nos joelhos desse jeito que menino faz. Suas lágrimas eram densas. Caiam na madeira fazendo estalos surdos que competiam com os soluços baixos. Depois de algum tempo sai uma menina da casa, uma loira, de vestido surrado, esquelética. Ela pede que o menino saia dali, ela queria passar. Disse que queria comida, iria buscar. Mas o menino não se mexeu não. Ela lhe acertou a nuca com as mãozinhas fechadas, era menor, mais frágil. Foi uma palmada desprezível pra ele. Levantou-se, olhou firme nos olhos fundos de quem devia ser a sua irmã, secou as lágrimas e disse que ninguém iria sair dali, e disse que papai e mamãe iriam ainda voltar, e disse que esperaria outros cinco dias, e disse que nunca desobedeceria ordens de seus pais. 'Entra!'. Entrou, chorando. O menino lá continuou, de cabeça baixa. Nosso aventureiro saiu de onde se escondia e continuou na estrada andando seu caminho. Deu uma última olhada no menino que o notou e ficou em alerta enquanto ele passava. Seguiu e nunca mais viu aquele pequeno em sua existência. Ora, deves estar maldizendo a ti mesmo por inventar de escutar esta história que conto, que nada tem de aventura ou graça. Acalma. Ouve agora o que se passou, sob outro olho, este tão especifico olho...

Por detrás daquelas folhas, havia um guarda muito forte, de armadura dura e pálida como marfim, espadas negras gigantes empunhadas que pareciam fundidas com as suas próprias mãos; tinha uma aparência de ar austero com a sua barba mal-feita, porém nobre. Digno de beleza, repleto de responsabilidades. Guardava aquele castelo imenso de pedra, bloqueando o único acesso com a sua imensidão. Na janela que dava para a frente do castelo, uma velha branca qual papel, magra quase a ponto de desaparecer. Seus dedos longos ossudos apontavam sempre para a frente, para a floresta negra que abria-se absoluta nas imediações da construção. Soluçava alto, gritava também, rouca como tinha de ser uma velha senhora. Então de súbito o guarda cansado e determinado olhou vagarosamente um olhar reprimente por cima dos ombros largos diretamente nos olhos daquela mulher. Ela não calou, mas seus dedos pararam de apontar para a floresta. Eis que surge o nosso aventureiro. Assim mesmo de onde estava, por detrás de uma planta. Imediato e alegre. Agora ele era um palhaço pintado, nariz vermelho e um daqueles chapéus de bobos da corte. Carregava um embrulho tão pesado nas costas que o seu caminhar era estranho e cômico. Um palhaço. Apareceu bem na frente do guarda sorrindo irônico. Nem pediu para entrar, foi caminhando em direção ao castelo. Apreensivo, o guarda logo ajeitou suas mãos cortantes negras estranhando a aura tranquila do palhaço intruso mesmo sob a visão um tanto pavorosa daquelas lâminas enormes. Quando chegou muito próximo, foi a hora que o guarda na sua posição teve que defender o que tinha de defender e desferiu dois golpes com as suas duas armas. Agilidade pelo que se viu era o forte do palhaço risonho pois quando vieram aquelas espadas desviou qual vento faz por entre brechas. Fora muito rápido! E o fracassado vigilante agora tinha seus braços presos a terra onde fixara as suas laminas. Tentava desesperadamente soltar-se do chão pedregoso. Nosso aventureiro palhaço sabia que não conseguiria livrar-se nem tão cedo e partiu para o castelo rindo para a senhora chorosa daquela janela da qual falei. Quando próximo o bastante, percebeu que a porta que daria para o interior do castelo estava lacrada por uma força conhecida mas impenetrável. Nada que o abalasse. Colocou o embrulho no chão, ao pé da janela alta onde estava a mulher. 'Minha princesa de marfim e mofo, escuta. Qual máscara que foi colocada em ti? De que feiúra? Eu, o palhaço, trouxe o tudo e o necessário, e nem escutar agora tu precisa pois lançarei este embrulho vital e gordo em tua janela. Pega, e eu me vou'. Além de ágil o homem era também forte pois como se lançando um prato de vidro, jogou o embrulho por cima da janela. A tristonha mulher ainda não vira nem ouvira nada, apenas chorava com os olhos na floresta. Com uma reverência longa, quase até o chão, nosso aventureiro deu as costas e seguiu no caminho da floresta. Quando passou pelo agoniado guarda, que ainda tentava libertar-se do solo, com apenas um toque, libertou-o daquela agonia e ele pode novamente empunhar suas mãos de lâmina negra, apenas assistindo aquele bobo que o desafiara e agora partia para a floresta. Quando ia lá longe, a senhora despertou do transe e avistou o embrulho. Rapidamente o abriu. Quantas maravilhas em forma de uma luz dourada saíram daquele pacote! E aquela senhora tão esquelética e curvada transformou-se em uma magnífica donzela loira de olhos brilhantes e um sorriso no rosto. O guarda também afetado pela claridade daquele embrulho cresceu em tamanho de onde estava e seus músculos pareceram duplicar. Os dois ainda continuavam olhando para a floresta, mas agora estavam revitalizados e mais fortes. Tudo por causa daquele palhaço que avistara aquilo tudo em pensamento. Um palhaço que na verdade era um andarilho aventureiro, um guarda que na verdade era um menino determinado, uma donzela que na verdade era uma menina faminta e um embrulho mágico que na verdade era uma bolsa repleta de comida de um certo condado deixada furtivamente na janela daquele casebre que com certeza duraria outros cinco dias, matando a fome de qualquer criança deste nosso mundo. É, companheiros, assim trabalhava e trabalha sem parar o maior de todos os aventureiros, que seguiu e ainda segue pelas estradas terrenas, vivendo todas as aventuras apresentadas na sua própria máquina pensante, embelezando nosso imaginário e construindo outras belas estórias!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

ASCENSÃO I

Pelo menos um disparo pro alto, hei de executar!
Mas que tolo esse capitão! Esperar? Negociar?
Lá chegam os emplumados, trotando projetos de cavalos.
Negociar!? "Segurem o fogo", diz capitão.
Pois tenho mais que fogo.
Na ponta da flecha, na extensão do meu arco
Tenho sangue coagulado dos meus pais, aqueles valentes
Tenho metal sangrado deste povo que miro alvo.
Nosso emplumados aproximam-se, iniciam diálogo.
Negociar!? Bem que ocorria paz há anos.
Novamente vinham eles, toda a prole
Exigir por meio de papéis mortos, direitos em nossas terras.
Negociar desta feita será impossível, meu péssimo capitão.
Num esticar de olhos e de braços: Voa, Flecha!
Crava em garganta descoberta o meu ódio, meu desejo, Flecha!
A prole se levanta atrás dos montes, venham legiões, capitão!
Acabou-se por hoje essa paz forçada.
Caem sobre nossas muralhas de centenas,
Milhares de braços desonrados...
Estiquemos os nossos, companheiros.
Conto vinte e sete flechas. Todas possíveis, vibrantes.
Chamo a mim mesmo Capitão.
Não errem nenhum dos tiros e estaremos salvos.
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CONSELHOS DE CAVALO

Olha mesmo se não foi correr Matias
Doido cansado de botinas mui pesadas
Esbravejando a sua espada cega em ares doidos
Bem mais, feria nuvens, monstros, princesas
Camponeses, andarilhos e o que há Matias!
Que há, Matias? Vai, continua a correr,
Nobre demência dum fidalgo cavaleiro
Parece até saído despercebido
Do coraçao dúbio de um daqueles guerreiros.
Correndo sempre, cortando o ar
Saliva como rastro, pedras dos meninos.
São os cavaleiros, sim, meio Matias!
Troveja, troveja bem forte!
São teus grunhidos horrendos que inflamam tua espada
Vamos! Desce rolando a relva com tais botinas emprestadas
Desce com teu brasão, oh que dragão, Matias, desce.
Vem doido matar dragões, chega tocando os corações
Desperta fidalgas demências destes nobres cavaleiros:
Te respiram, Matias.
Como disse, foi deles que escapaste em fluido invisível
Dum laço, pedaço de romance.
Como foi não se sabe, mas corre, Matias!
Grande é o vale e todos os desafios.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

PERTURBAÇÕES

Outros monges o chamavam Madiro Santo.
Naquela tarde, frente ao mosteiro
Sacudia um de seus únicos costumes, poeira
Sol descia, pela estrada vinha um vulto.
Era um senhor; de alaúde , de pés descalços.
"Água, meu bom monge?"
"Manja destas cordas, senhor?"
"Assim como da tua língua flui o bom latim."
"Então entra. Tens tua água. Toca algo, dorme aqui."
A dupla partiu pelos salões rochosos
Acomodaram-se em um belo quintal
Vários bancos, mesa, comida posta.
Saciados, o desafiador velho alaúde tocou
Tocou a sabedoria, o curioso do senhor:

"Que é água em mesmo rio, não fosse o tempo?
Que é sede de beber, sem ter vontade?
Sem pensar porque lá está, nela nado ou dela bebo

Não preciso nem saber que sem pensar porque de lá está
Posso fruta comer, a semente plantar
Assistir nascer um vegetal sem perguntar
Sabendo que quem o criou fui eu, só eu e ele lá está."

O monge entendeu a música
Embora simulasse distração
Um inseto que corria em sua mão
Acompanhava com os olhos.
"Que é Deus para tu, Madiro?"

"Deus já foi, Carmelo, o início
É o presente, será o futuro!
É o que empurra, o que freia
Tanto abraça como cospe.
E mesmo água e semente de tua trova
Em um passado os deu sentido
Já foi Deus, Carmelo, é certo, início."
Lentamente, o músico tira dos seus pertences
Livro espesso, velho, cruz na capa.
Segura-o forte.
"Eu que já fui, Madiro
Porque posso falar isso com meus próprios órgãos.
Eu que já fui, Madiro.
Fui menino e cá estou, maior e bem vivido
Sente, Madiro. Sente o tom da minha voz
O toque da viola, sente meu cheiro desagradável.
Vê? Eu que fui, faço ser, serei por mim; assim é cada um.
Sigo dos meus impulsos e tropeços.
Se necessário, freio. Inerente deste livro..."
Balança suas folhas pelo vento seco daquelas terras e o guarda.
Tinha Carmelo os seus poderes, isso é fato
Mas Madiro já vinha de incertezas, aquelas vagas, porém bem expressas, palavras
Fizeram-no notar que já era muito tarde para um monge
Guiou o músico para um quarto no fundo e foi para o seu próprio.
Naquela a imensidão incontida de suas conjecturas esqueceu de rezar, não de Deus
E mastigou todas aquelas colocações; até que adormeceu.
Quando acordou, expulsou o músico sem alimento ou água
Logo tratando em ficar como estava.
Para ele Deus existia e punha seus objetos em dia, seu estomago funcionava
E assim sempre seria.

Luiz Victor

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Ler: ACORDO.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ACORDO

"Foi num espaço pra lá dos mares
Num reino vermelho, encarnado, escarlate
Que do rei, um louco daqueles extremos
Senhor grosso, cruel, desgostoso,
Dependia de cima a baixo, de leste à oeste...
E o que conto, escuta! É o misto do ousado com a realidade,
Mesmo sendo esta pesada...
Se valia tal rei dum sistema
Limitava a vida dos réus, seus crimes, problemas
Num acordo corrompido, dois contratos escolhidos, aleatórios
Dito um como salvador, outro como pena máxima.
Mas olha, filho, que malvado era o rei
Todos estavam errados e ninguém teria vez
Descumpria a sua parte, aos coitados oferecia falsas esperanças
Enganava o povo, a corte, os bispos, as damas
Fabricando dois papéis de mesma sina
Era morte aos pobres, sorte zero...
Assim foi por um bom tempo.
Uma vez, passava, e passava do seu jeito, por ali
Carmelo, um músico errante, sábio baderneiro
Logo aprontou um ou dois dos seus crimes bobos
Indiferente, pois ali era um sábio, filho!
Sempre sabia que sairia qualquer que fosse situação.
E tão logo cometidos, logo preso.
Conhecendo as regras daquelas bandas,
Sabia do rei, sabia do acordo, conhecia sua falha.
E quando julgado, chegou sua vez de escolher o papel
Aproximou-se dos pergaminhos dobrados
E rápido, rápido mesmo, filho, agarrou um deles e o engoliu.
Todos ficaram espantados com Carmelo.
O rei, enfurecido, rubro, guinchava por dentro.
E o nosso músico ficou por ali, rodeando a grande mesa
Sorriso largo, analisando as faces...
´Ah! Sim sim... Que temos agora, tão amado rei, neste outro documento?´
Receoso e conhecedor da resposta
O rei abriu o papel sob olhares curiosos que vinham de todos os lados
'Morte!'
Desacostumados e confusos, a corte esperava.
'E como consta, meu excelentíssimo e amado rei
Aparenta que escolhi o papel que dizia VIDA!
Que sorte, não? Depois de milhares infelizes
Possuo a sorte de contornar este tão íntegro e justo sistema
Que apenas dela, ah que sorte!, dependo sempre
E apenas ela, para geral conhecimento,
Traiu os que me precederam,
ou quem sabe, todos traídos pela justiça...'
E o sábio abaixou-se, pegou seu alaúde, seus trapos
Virou-se e foi em direção aos grandes portões
Deixando para trás um povo que despertava ensandecido
Uma corte que cercava a Coroa, estrangulando-a
Inspiradas e esclarecidas, as pessoas
Pelas idéias, razões do Carmelo
Que se foi pelos vastos campos daquela terra
Cantando suas músicas e pregando liberdade."


Pra Chaves o/!

Luiz Víctor

quinta-feira, 31 de julho de 2008

ERVA

"Busca aquela erva, Primo, vai!"
Era um ardor tão intenso que contagiava o ambiente.
Deitado, um homem disforme ardia.
Ao seu lado, outra face em desespero que fizera o pedido.
E já saindo, Primo.
"Corre, Primo, me traga aquela erva!"
Deixar o casebre nunca fora tão prazeroso.
Corria, fingia, corria, aqui e lá, pulava feliz.
"Antes lindo do que cruel é meu amor...
Isso nao o isenta da crueldade.
Porém, o primeiro é maior!"
Pensava enquanto o mato começava a ficar denso.
Escoltado pelo farfalhar das folhas,
Pelos piados e chiados de criaturas que não conheciam amor,
Ajoelha-se.
Como eram parecidas aquelas ervas!
Flores de mesma tonalidade, de mesmo cálice.
O curioso é que uma curava e a outra matava.
E curar, sarar, reviver, sanar... Não interessava o rudimentar alquimista.
Ele queria aquela que tira a vida,
Aquela que compartilhava dos seus desejos...
Colhe-a.
Outra corrida feliz de volta à casa, sem nenhuma hesitação
Sem receios.
O homem ainda ardia, que morresse.
Sua amada esperava com água fervente, que tudo logo acabasse.
Ele lhe dá a erva e senta-se, que não risse.
Nem era tão bela assim sua amada.
Agora ali a mexer um chá que mataria seu fardo,
Suas mãos reluziam verdes com a mistura,
E o amor de Primo sempre a aumentar...
"Toma! Vais ficar melhor, não é Primo?", olhando para trás com um

sorriso amarelado.
Por um instante, veio arrependimento
"Vai sim...", era apenas impressão.
O doente toma da bebida... Sua expressão muda
Depois de segundos, muda novamente
E logo após, sua pele escurece e seus olhos fecham-se.
A mulher cai por cima do corpo, chorando
Primo solta uma gargalhada.
Percebendo o que ocorrera a mulher olha do chá de erva para Primo
De Primo para o chá da erva... E trêmula, beberica da mistura.
"Não! Não faz isso! Fiz isso por nós..."
Ela se vai.
A tristeza indescritível de Primo
Seu coração, nulo, sem peso, sem amor
E as possibilidades poucas de pensar,
Fazem com que ele mesmo prove com um último gole,
Deitado entre quem já havia amado e odiado
Como entre duas plantas, uma que queria e outra que queria morta
Mas agora de nada valiam pois uma erva-daninha nascera entre os dois
E entendia que ele mesmo era esta erva,
Que matou as outras maiores, mais vistosas
E no seu ciclo, agora seca, sem água. Morre, sem nada.

Luiz Victor 30/07/08

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Mato

"Sente, prova desse mato."
Há muito era vasto e verde.
Uma imensidão! Eram campos cobertos,
Abertos ao vento, foram tempos e tempos
Sempre uniforme, moldado pelos anos...
A mesma mão que cuidava, apoiava-se na relva
Tudo era uma ponte! Junto com a brisa vinham os sonhos
Os desejos, " Sente! Que cheiro! É o mato, mulher! Escuta..."
Piados, seus ecos, o balanço das árvores (belas!) precipitavam-se aos ouvidos
O senhor tão menino, ria da força destes estímulos e os sentia como nunca.
Duas fragéis criaturas ali, entregues ao mato, ao que este proporcionava.
E naqueles campos, deitavam-se sobre seus antepassados
Agora parceiros no crescer do mato, no equilíbrio da relva.
Sabiam que ali estavam reservados seus lugares
Cabendo aos seus filhos deitarem-se onde hoje se encontram.
Tudo! , mesmo sendo um ciclo, tudo para o senhor era único.
Como gostava da rotina, do cultivo, do seu mato!
Agarra firme as plantinhas, "Belas..."
Entre os dois, um aperto forte de mãos
Mas naquele momento afroxou-se, um braço cedeu.
Sorriso permanece no rosto, e se vai!
Para onde o mato guiava sua mente, talvez para o que inexiste.
Quando a mulher percebeu, com esforço, o abraçou
E não soltou até que o encontrasse...
Ou até que inexistisse.

Luiz Víctor 10/07/08

terça-feira, 1 de julho de 2008

Lua

"Encosta, luta, desvencilha-se , vem!
Quero você por perto sempre, vem!
Ainda é tempo, nem mesmo as luzes de cima acenderam-se
Nem passos acompanham os teus, vem!
Vem amiga, o tecido é escorregadio, as pedras lisas
A corda frágil, e só o meu amor difere;
Este não parece nem um pouco com tais objetos
E com ele o tecido se mantêm, as pedras me seguram
As cordas não desfazem-se; Vem amiga, vem!
Escuto daqui que queres vir, o palpitar vital denuncia tua vontade
Ele que deve fazê-la agir, vem!
A Lua cheia banirá teus medos, amiga.
Deus ajuda os que amam e os que fazem pelo amor...
A pôs lá hoje, encorajou-me hoje e o caminho é ameno.
Também dizem da beleza do Norte, amiga.
Ah! Se verdade? Vem! Saberemos se vermos!!
Ah! Se mentira? Deus é justo...
E locais belos encontraremos em qualquer lugar que formos!
Força a janela, amiga!
Olha para fora, minhas mãos tremem...
O amor é forte mas não desafia por completo nosso físico.
Quem dera se personificado... Teriámos um gigante...
Bem armado, robusto; Cordas e pedras seriam desnecessárias
Apenas ordenaria que derrubasse este castelo,
Que a trouxesse para mim. Seria fácil...
Como doem as mãos, amiga...
Peço que... Sim! Tu...
Meus olhos lacrimejam, amada... Tu és linda.
Estou tão no alto... Tão em cima! Que grande torre!
Mais perto da tua beleza, iluminada pela Lua!
Não hesita mais, amada, vem!
...!
Agora, amada, vem!
Não!... Não fecha a janela!!
Por favor, abra-a..."
E realmente era bem alto
Não sabia se chovia, ou se ele mesmo chorava
Mas o tecido era escorregadio, as pedras lisas, a corda frágil
As mãos tremiam.
Olhando a Lua, agora uma bola vilã
Um presente de um fantasma,
Uma esfera que brilhava, mas que ainda assim não o iluminava,
Desfez-se do seu amor como os dedos da corda
E da corda o parapeito
E do Mundo outro galã.

Luiz Victor 02/06/08

quarta-feira, 25 de junho de 2008

DUAS MOEDAS

"São duas moedas, Macedo.
Apenas duas míseras moedas que te imploro.
Pedaços de metal para tu desprezíveis.
À mim, necessárias. E muito.
A criança morre, Macedo.
É fome que separa todas essas terras e também os muros.
O constante tilintar de um lado,
É abafado pelos gritos do outro.
Lamentos, precisamente.
Ah, Macedo, se mereço!
Quando o primeiro raio toca o chão de pedras
Já estou de pé, para a roça me vou.
E são horas várias de labuta
Debaixo de mais raios, e quando desaparecem é hora da saída.
Quanto a tu, Macedo, mereces?
Digo que não e o porquê sucede:
Acorda e come, vai para a capela se esconder do que é real
Pela tarde aplica as taxas à nós, escravos da cruz e da coroa
Aperta nossas gargantas e nos joga na parede.
E isto não dura mais do que refrescantes horas sentado,
A escrever os dados, os números, nossa sentença.
Ah, Macedo! O que diria mamãe?
Hoje com duas crias tão distintas e distantes
Tão separadas; são os muros. E não apenas eles.
Tua insensatez e hipocrisia nos desune...
Mas não importa, Macedo...
Desejo apenas duas míseras moedas.
Dá-me, irmão, o que te peço. Duas moedas..."
Com um gesto de mãos engorduradas
O gordo homem, com um riso mudo, abre a bolsa, começa a procurar.
E acha. Duas moedas amarelas, igualmente engorduradas.
Joga-as. O magro homem se abaixa, apanha-as.
Vira e começa a seguir para o portão, voltava para casa...
" E vai de graça, irmão?
Tem preço para tudo, não será diferente.
O gordo aqui, por mais que diga, é humano
E como humano, pecador, falho.
E continuo na falha. Persistir nela é meu direito.
Pois com muito esforço, comprei meu posto no divino
Minha cadeira, meu lugar. Está lá, guardado, reservado.
Quanto ao preço, pedinte miserável, estipulo meu prazer.
Tua mulher eu quero, como escrava, meu cão
Que seja menos que isso."
Pára de andar, volta a face.
"O que tu pedes, Macedo, me abala
Toma tuas moedas e delas faça bom proveito
E irei delvovê-las e fazer com que entendas
E também que reflita sobre os ensinamentos de nossa mãe
E que poupe-nos da sua vida miserável..."
Ao término da fala, já estava por cima.
Já esganava. Já o matava.
O fez.
E o destino do pedinte e dos seus, já entendia
Os guardas já vinham por trás e o sol se punha,
Macedo, no céu, regojiza do que comprara
Pedinte ao inferno se danara.


Luiz Victor 25/06/08

quarta-feira, 12 de março de 2008

MARIBEL E LUCINDA

Frequentemente, cobertas por seus costumes
As duas freiras, gado e ovelha iam alimentar.
Na montanha, distante dos sons monótonos
Das canções e hinos a cada nota odiados.
E ali brincavam e por vezes se tocavam
Segurando o feno, trabalho tão amado.
O gado amansa, ovelhas as rodeiam
Assistindo toda a dança do poder de serem humanas.
Maribel, a mais pálida da dupla
Tange os bichos, isola a área, seu lugar.
E Lucinda já gozava de sua sombra
Ao ver a outra empenhada à assustar os animais.
Aproximam-se e se amam inocentes,
Despidas, descrentes daquilo que fora escrito.
E no convento, a velha madre enrugada
Tão sacra, pura, lacrada
Solta fogo pela vulva bulinada
A qual por anos constantemente lubrificada.


Luiz Víctor

sexta-feira, 7 de março de 2008

Anne

"Campanha Tha MEDIEVAL I ! Valeu galera do IRPG!!"

ANNE

No lúgubre cair da noite do burgo , os trabalhadores iniciam a retirada dos campos de colheita.
O ângulo do Sol reflete nos vitrais da capela iluminando a missa que já acontecia.
No castelo da senhoria, tudo estava escuro, exceto uma luz que vinha de algum comodo nos mais altos níveis.
Todos estavam na igreja, menos Anne.
Menos Anne.
Pálida e despida, a jovem estava amarrada pelo pulso direito à cama do cômodo.
Incomodada com o pousar de mosquitos na sua vagina
Ferida,
Usada,
Imunda.
Chorava.
Seus seios marcados por mordidas fortes e as escaras no pulso completavam sua dor.
Chorava.
Começa a desenhar algo no chão utilizando um pequeno pedaço de carvão.
Esboça o que parecia ser um simbolo de cabala.
Profere algumas palavras e faz mais desenhos.
Por fim grita alguma outra palavra, e a medida que o som se esvai, esvai-se tambem a sua vida.
Ao mesmo tempo, em outra localidade mais ao norte , nascia Lohanne Petra, pequena nobre.
No futuro viria a ser apenas... Anne.


Luiz Víctor

CARMELITO

Herói de tez amedrontada,
Evasivo, escuta o som da enxada
Marcando a terra de seu pai, senhor.
"Quem haverá de ser tu, Carmelito?...
Com tal nome arrancarás só risos
E não membros , cabeças como dizes...."
O pai dizia de forma debochante
Que Carmelito tristemente delirante
Lamentava em tom incerto os seus desejos.
"Mas pai, olha para mim sem tais conceitos
Ergue a face e me encara , sou direito
E por direito , é direito que me encare
Se viril fostes em momento de coito
Assume agora esse teu filho , dentre os oito;
Tens sete cópias de si mesmo,
Faltaria um outro desprezível ao teu desejo?
Que ao teu ver, mesmo o mais novo é mais valia?
Não pai, Eu , Carmelito, valho mais
E no mais , renego essa velha enxada
Substituo-a por essa minha espada
Saio hoje dessa terra magra."
Num baque , o instrumento do velho vai ao chão.
"Que tu diz Carmelito?
Será tão homem, qual dizes em valentia?
Pois te digo, infame
E o faço friamente :
Sairá daqui apenas matando-me,
Ou do contrário és mais fraco que pensara"
Do deboche a fina lâmina cessara
Qual a Lua com brilho fecha o dia
Carmelito ali renascia
Apoiado no papai já escarlate.
Fora dali. Amanhã, um novo dia.

Luiz Víctor